terça-feira, 21 de maio de 2013

Mediação Cidadã: Arte e Diversidade Social





Elizeu do Nascimento Silva* 


* Mestre em Artes Visuais, com dissertação 
sobre Crítica de Artes produzida no Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (UNESP). Possui pós-graduação lato sensu em “Fundamentos da Cultura e das Artes”, também pelo IA-UNESP, em São Paulo, SP. É bacharel em Comunicação Social pela Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), professor universitário e editor de livros.


Não dá para falar de arte e cidadania sem antes discutir brevemente a Cultura como contexto mais amplo no qual as artes se inserem. Embora todos se recordem facilmente do significado da palavra “cultura” – explicada no dicionário, entre outras acepções, como “cabedal de conhecimentos de uma pessoa ou de um grupo social”[1] – o termo admite sentidos bem mais abrangentes.

Em sentido amplo, cultura são todas as formas de manifestação da vontade humana. Áreas tão distintas como a Comunicação e a Agricultura, o Direito e a Arquitetura, a Pedagogia e a Medicina, as Artes e a Contabilidade, são expressões da cultura de um povo ou nação. As preferências gastronômicas, o modo como nos vestimos, as atividades econômicas às quais nos dedicamos, o modo como moramos, os governos e as políticas estatais que adotamos, tudo isso está contido na cultura. Na vida social nada ocorre gratuitamente, pois somos seres históricos e nosso modo de viver hoje guarda relações íntimas com o nosso passado e com o que aprendemos com nossos ancestrais. Portanto, a cultura é um repositório de conhecimentos que abarcam todos os aspectos da vida humana. Em resumo, “cultura é tudo aquilo que diz respeito à existência social”, conforme SANTOS.[2]

No entanto, há um campo específico que congrega as manifestações humanas destituídas de finalidade prática, que se convencionou designar como Cultura com C maiúsculo. É ela que nos diferencia como HUMANOS, revelando nossa capacidade de nos ocuparmos com coisas em função apenas do sentimento que expressam e daquilo que representam. Buscamos expressar sentimentos e ideias quando produzimos bens culturais; nos ocupamos desses bens culturais apreciando, rejeitando ou analisando o valor estético desses bens – no sentido de estética dado por John DEWEY[3], ou seja, “o que quer que proporcione em alguma medida o enriquecimento da experiência imediata”.

SANTOS amplia o conceito ao afirmar que “quando falamos em cultura estamos nos referindo mais especificamente ao conhecimento, às ideias e crenças, assim como às maneiras como eles existem na vida social”. Numa definição de arte, que bem pode ser ampliada como definição de Cultura, DEWEY afirma tratar-se do “lócus paradigmático dos valores” – o que nos permite tomar a Arte e a Cultura como expressões dos valores de uma dada sociedade.

Ora, se a Cultura subjaz a vida social e constitui-se num ambiente no qual o conjunto de valores da sociedade se manifesta, a não-participação na Cultura representa exclusão da vida social e dos valores vigentes numa dada sociedade.

SANTOS registra que somente no século XIX a Cultura entrou para o rol dos estudos que se ocupam da compreensão da vida em sociedade. Não por acaso, a noção de Cultura surge na Europa dividida em povos que disputavam a supremacia entre si. Ocorre, também, num momento em que as potências europeias encontravam-se em franco processo expansionista, dominando e ocupando extensas áreas nas mais diversas regiões do globo. O processo expansionista começa muito antes, quando os confrontos entre o “modo de ser” europeu e o dos povos conquistados podia ser explicado/compreendido na perspectiva da religião. As potências europeias têm em seu DNA os avanços militares sobre outros povos em nome da religião e da civilização levados a efeito a partir do século XI, sob a alegação de combate à barbárie e ao paganismo. As Cruzadas ficaram para trás, mas não a sanha expansionista. Se no século XIX o crescimento da visão laica de estado tornou anacrônicas as justificativas religiosas, fortaleceu-se, à mesma época, o conceito de cultura ligado aos povos – sendo que obviamente os conquistadores se consideravam detentores de cultura superior e eram assim considerados pelos conquistados. “...as preocupações com cultura contribuíram para delimitar intelectualmente a posição internacional do Ocidente”, afirma SANTOS. Parecia natural que os europeus não apenas mantivessem as políticas coloniais, como as expandissem, pois afinal eram detentores da cultura “superior” que poderia livrar os povos incultos da barbárie e do atraso. Na concepção eurocentrista, a dominação consistia praticamente numa benesse das matrizes para com as periferias do mundo, haja vista a transferência de cultura que esta possibilitava.

Contemporaneamente, as reflexões sobre cultura voltam-se para dentro da própria sociedade, com sua multiplicidade de facetas e de diversidades. Embora não se constitua mais como aspecto relevante de distinção entre nações, continua atuando como fronteira – desta vez, entre segmentos da sociedade. No seio da sociedade capitalista pós-moderna, os lugares de ação dos indivíduos são demarcados conforme a participação de cada um nos sistemas de produção e de consumo. O reconhecimento e a prevalência dos indivíduos correspondem simetricamente à contribuição que dão ao sistema econômico do qual fazem parte, tendo o acesso a bens culturais, bem como a primazia na validação das expressões culturais subordinados a essa contribuição e atuando como distintivos do estrato social do qual fazem parte.

Esta perspectiva permite identificar três padrões de Cultura – cada um deles aglutinando em si uma imensa variedade de expressões culturais e artísticas – vigentes nas sociedades urbanas, que hora se tocam olhando curiosamente um para o outro, hora se chocam rispidamente para em seguida se distanciarem. De um lado, a cultura erudita, autoproclamada como “alta cultura”, produzida por e para segmentos da sociedade dotados das referências intelectuais necessárias para apreciar esteticamente as produções de melhor refinamento; de outro, a cultura popular, considerada ingênua e superficial, produzida espontaneamente pelo povo para consumo próprio, tendo como matéria-prima suas tristezas e alegrias, mitos e utopias; compondo a tríade, encontra-se a cultura de massa produzida pela bem-sucedida indústria cultural, cujos produtos destinados originariamente às massas proletárias alcançam igualmente todos os segmentos da sociedade.

A reunião dos bens culturais das classes privilegiadas sob a etiqueta da “alta cultura” estabelece uma hierarquia segundo a qual o Olimpo fica reservado para a cultura erudita, as várzeas devem ser preenchidas pela cultura popular e à cultura de massa cabe todo o terreno intermediário. Aos consumidores dos padrões mais populares de cultura (popular e de massa) não é facilitado o acesso aos bens da alta cultura, para que o feudo das elites intelectuais e econômicas não seja conspurcado.

Mesmo no patamar da cultura de massa, a distribuição dos bens culturais obedece à lógica da estratificação social. Marilena CHAUI (2008)[4] afirma que a indústria cultural separa os bens culturais em função de seus valores de mercado, destinando obras “caras” e “raras” a um segmento específico do público que, por dispor dos meios de consumo, constitui uma elite cultural. Para a massa são destinadas obras “baratas” e “comuns”.

Assim, em vez de garantir o mesmo direito de todos à totalidade da produção cultural, a indústria cultural sobredetermina a divisão cultural acrescentando-lhe a divisão entre elite “culta” e massa “inculta”.

Em segundo, contraditoriamente com o primeiro aspecto, cria a ilusão de que todos têm acesso aos mesmos bens culturais, cada um escolhendo livremente o que deseja, como o consumidor num supermercado. No entanto, basta darmos atenção aos horários dos programas de rádio e de televisão ou ao que é vendido nas bancas de jornais e revistas para vermos que as empresas de divulgação cultural já selecionaram de antemão o que cada classe e grupo sociais pode e deve ouvir, ver e ler. (CHAUI, 2008)

Coincidentemente (ou não), a “elite culta” mencionada por CHAUÍ é quem detém o poder político, a capacidade econômica e a possibilidade de cidadania plena.

A esta altura, permitam-me recapitular um pensamento já formulado no início desta reflexão: se a Cultura subjaz a vida social e constitui-se num ambiente no qual o conjunto de valores da sociedade se manifesta, a não-participação na Cultura representa exclusão da vida social e dos valores vigentes na sociedade. Neste sentido, a distribuição da Cultura conforme a condição socioeconômica dos indivíduos consiste também numa forma de distribuição estratificada da cidadania – sendo esta considerada como a possibilidade de participação na vida social em todos os seus aspectos e de compartilhamento dos valores vigentes na sociedade. Na mesma medida em que se admite a existência de “alta cultura/cultura erudita” e “cultura popular” e “cultura de massa”, há que se admitir também a existência da contrapartida na forma de “alta cidadania/cidadania plena”, “cidadania popular” e “cidadania de massa”. Desnecessário dizer que somente a “alta cidadania/cidadania plena” interessa aos indivíduos.



Separação entre obras de arte e público

Embora alguns museus, casas de espetáculo, companhias artísticas e outras instituições atuem no sentido de facilitar o acesso da população às artes, o desafio da aproximação entre arte e público tem se mostrado maior que os esforços empreendidos. Desacostumado das linguagens artísticas eruditas, e alimentado pela indústria cultural com estéticas pasteurizadas, o público mais foge da arte que a procura. Perversidade máxima: não é (apenas) o preço dos ingressos – quando são cobrados – que obstrui o caminho entre arte e população, mas principalmente uma noção de não-pertencimento que legitima a separação, resultando em incompreensão e enfado com relação às linguagens artísticas. Afinal, como ensina a professora Anne CAUQUELIN[5], para apreciar as obras de arte é necessário habitar com elas, expor-se a elas habitualmente, qualificar-se, pela habitualidade, para o jogo da arte – um jogo de constituição de sentidos.

A obra como ‘jogo’ só brota com a condição de participação ativa, de interpenetração, de um diálogo no qual o que advém enquanto se dialoga é a verdade do diálogo, o fato de ele ocorrer e que, ocorrendo, consegue representar seu próprio ser de diálogo;... (CAUQUELIN, 2005:99).

Herbert READ[6] propõe uma fruição em outro nível, mais sensorial e emocional, mas nem por isso ocasional:

(...) Dizemos que uma obra de arte “nos emociona” e tal expressão é exata. O processo que tem lugar no observador é emocional: acompanham-no todos os reflexos involuntários que um psicologista associaria à emoção.

(...)

A obra de arte é, de certo modo, liberação da personalidade; normalmente os nossos sentimentos estão inibidos ou reprimidos. Contemplamos uma obra de arte e imediatamente realiza-se uma liberação; e não somente isto – a simpatia é liberação de sentimentos – mas também exaltação, retesamento, sublimação. (...) A arte é a economia do sentimento; é a emoção cultivando a boa forma. (1978:31-32).

Seja pela via do jogo hermenêutico mencionado por CAUQUELIN ou pela fruição imediata comentada por READ, o que se percebe é a arte atuando como meio de atração do indivíduo ao mundo da subjetividade e da apreciação empática, gesto absolutamente necessário particularmente na sociedade contemporânea em que o simulacro (falsa presença) se consolida justamente no vácuo da subjetividade. (BAUDRILLARD, 1991: 9)[7]

É neste contexto que trago à discussão a ideia de mediação cidadã, assim considerada aquela que visa a aproximação entre população e obra de arte, num apoderamento desta como bem imaterial tão essencial à sociedade como o oxigênio o é à existência humana. É CAUQUELIN, mais uma vez, que oferece sustentação para a utopia de uma democratização da arte,

... que deve estar [a arte] ao alcance de todos, do senso comum e do bom senso, que é um lugar comum (no sentido de espaço público), propriedade da comunidade e não de uma só pessoa, que ela faz parte da história, ou seja, de nossas memórias (mesmo que nada saibamos sobre ela, nem sequer que ela existe), e portanto está ligada ao corpo físico e espiritual da nação... (2005:169)

Em que pese a alegação de que as artes visuais são, em essência, manifestação elitizada da cultura que se mantém relativamente imune à massificação promovida pela indústria cultural que a tudo formata e atribui rótulos, apesar da luta de importantes setores da cultura pela preservação das artes das visuais como bastião de resistência às investidas da lógica de mercado – luta inglória e fadada à derrota, pois o mercado habilmente consegue transformar resistência em oportunidade de negócios, concedendo às “mercadorias artísticas” apenas a distinção de serem comercializadas por cifras estratosféricas num mercado alimentado por ambição e vaidade de uns poucos privilegiados –, sim, a despeito de tudo isso, o acesso às artes visuais precisa ser franqueado a quem desejar conhecê-la em profundidade e fruir de seus atributos estéticos independentemente de estratificação social.

Sem a intenção de atribuir finalidade utilitarista à arte, não é novidade que em suas diversas manifestações e linguagens ela promove a subjetividade e pode ser um vigoroso agente de apoderamento da cidadania e de inserção social, considerado o nível comunitário, e de superação de estigmas e recuperação da autoestima, no nível individual. Como afirma DEWEY (2010:551),

A experiência estética é uma manifestação, um registro e uma celebração da vida de uma civilização, um meio para promover seu desenvolvimento, e também o juízo supremo sobre a qualidade dessa civilização. Isso porque, embora ela seja produzida e desfrutada por indivíduos, esses indivíduos são como são, no conteúdo de sua experiência, por causa das culturas de que participam. [Destaque acrescentado]



Referências bibliográficas

BAUDRILLAR, Jean. Simulacros e simulações. Lisboa, Ed. Relógio D’Água, 1991

CAUQUELIN, Anne. Teorias da arte. São Paulo : Martins Fontes, 2005

CHAUÍ, Marilena. Cultura e democracia. Crítica y Emancipación, (1): 53-76, junio 2008

DEWEY, John. A arte como experiência. São Paulo, Martins Fontes, 2010

READ, Herbert. O sentido da arte. 4ª edição, São Paulo, ed. Ibrasa, 1978

SANTOS, José Luiz dos. O que é cultura. 16ª edição, São Paulo, ed. Brasiliense, 2006




[1] HOUAISS, Antônio. Houaiss eletrônico: dicionário da língua portuguesa. CD-ROM. Versão 3.0. Instituto Antônio Houaiss e Ed. Objetiva, 2009


[2] SANTOS, José Luiz dos. O que é cultura. 16ª edição, São Paulo, ed. Brasiliense, 2006


[3] DEWEY, John. A arte como experiência. São Paulo, Martins Fontes, 2010


[4] CHAUÍ, Marilena. Cultura e democracia. Crítica y Emancipación, (1): 53-76, junio 2008


[5] CAUQUELIN, Anne. Teorias da arte. São Paulo : Martins Fontes, 2005


[6] READ, Herbert. O sentido da arte. 4ª edição, São Paulo, ed. Ibrasa, 1978


[7] BAUDRILLAR, Jean. Simulacros e simulações. Lisboa, Ed. Relógio D’Água, 1991