sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Retratos do interior do Brasil: sertanejos de Euclides da Cunha e caipiras de Almeida Júnior

Há quem diga que o livro Os Sertões, de Euclides da Cunha, lançado em 1902, tem para a cultura brasileira a mesma importância que Os Lusíadas para os portugueses, Dom Quixote para os espanhóis, a Divina Comédia para os italianos, o Paraíso Perdido para os ingleses, Fausto para os alemães. Opiniões à parte, a obra constitui-se, de fato, em importante registro de um momento emblemático da história brasileira, os primeiros anos pós a proclamação da República, quando o país ensaia os primeiros passos na direção da modernidade. Este artigo tem como objetivo sintetizar a descrição do sertanejo feita por Euclides da Cunha e compará-la com algumas obras fundamentais do artista José Ferraz de Almeida Júnior, célebre pintor das cenas e dos tipos humanos do interior do Brasil nos últimos anos do século XIX, época em que o livro foi escrito. Por meio da comparação, será possível perceber se os dois narradores, Euclides da Cunha e Almeida Júnior, adotaram como objeto de trabalho e estudo o mesmo personagem, ou seja, o sertanejo.

O momento narrado em Os Sertões é um momento de ruptura, daqueles em que a sociedade quer livrar-se de tudo que considera arcaico, tudo que lembre o atraso e que a impede de iniciar uma trajetória modernizadora. No caso brasileiro, a defasagem de suas cidades comparadas às europeias é algo que desconcerta as elites culturais e econômicas do país. A recente proclamação da República sinaliza o desejo brasileiro de trilhar caminhos que o levem à modernidade e ao desenvolvimento. É um tempo de mudanças.

O curioso é que a sociedade urbana da capital da República que apoiou as investidas militares contra Canudos – na visão da elite litorânea, um cancro monarquista no interior do país que precisava ser extirpado – foi a mesma que “devorou” avidamente o livro de Euclides da Cunha, transformando-o rapidamente em best seller, embora o livro esteja longe de defender a ação militar que apagou do mapa o povoado de Canudos. Aproximadamente 500 exemplares foram vendidos na semana de lançamento do livro. Os restantes, da tiragem inicial de 1000 exemplares, se esgotaram em dois meses. Houve ainda mais duas edições, de 2 mil exemplares cada, esgotadas em quatro anos. Considerando a escassez de leitores da época, a recepção pode ser considerada espetacular.

Euclides da Cunha era engenheiro, com formação militar. Na época em que escreveu Os Sertões, atuava como jornalista para o jornal “A Província de S. Paulo”, atualmente “O Estado de S. Paulo”, tendo sido enviado a Canudos em agosto de 1897 como correspondente de guerra.

Do ponto de vista do jornalismo atual, Os Sertões seria uma reportagem lastimável. O uso excessivo de terminologia científica, as divagações, a defesa de ideias polêmicas e paralelas ao tema central em desrespeito absoluto à atual supremacia da “objetividade”, bem como a estrutura empregada – um monumental “nariz-de-cera” de mais de 150 páginas precedendo o ápice da história – tudo isso fariam o texto naufragar. Por outro lado, o trabalho de Euclides constitui-se num rematado exemplo do “jornalismo romântico” que define o repórter como “testemunha ocular da história”. Euclides da Cunha testemunhou a guerra de Canudos durante dois meses, período no qual enviou 25 reportagens para o jornal. “Reportagem”, segundo o professor Nilson Lage, “é uma exposição que combina interesse do assunto com o maior número possível de dados, formando um todo compreensível e abrangente”. Isso o trabalho de Euclides da Cunha tem de sobra.

O que nos interessa, contudo, é a descrição que Euclides faz do personagem central da história – o sertanejo. Para os republicanos, ele é o empecilho que precisa desaparecer para que a modernidade possa se instalar no país. Os habitantes do litoral que tentam criar nos trópicos uma filial da civilização europeia não toleram mais a existência de grupos que, desdenhando os avanços intelectuais, os feitos culturais e as conquistas tecnológicas, teimam em viver como se o século XX ainda não houvesse despontado no horizonte. Para os habitantes da faixa litorânea, Canudos era uma aldeia de sertanejos semibárbaros. Esta é a maneira como Euclides os descreve no segundo capítulo de seu livro.

Origem do sertanejo

A disparidade entre o litoral e o interior do país era tão grande que Euclides da Cunha se viu obrigado a descrever o habitante do sertão. Nas palavras do autor, o habitante do Norte é muito diferente do sulista, uma vez que “circunstâncias históricas, em grande parte oriundas das circunstâncias físicas, originaram diferenças que se prolongam até os nossos dias”. (p. 73)

Euclides descreve o sertanejo como um indivíduo essencialmente curiboca ou caboclo – resultante da miscigenação entre o europeu e o indígena. A sucessão de cruzamentos acabaria por extinguir os índios no Norte do país, bem mais do que o extermínio violento e premeditado. Não é por acaso que os indígenas se refugiaram no sertão: na medida em que o litoral foi loteado entre os europeus, que o ocuparam com imensos canaviais e o povoaram com levas de negros trazidos da África como força de trabalho, as comunidades indígenas foram sendo empurradas para o interior, onde a aspereza natural do terreno oferecia proteção natural contra os invasores. Segundo Euclides isso ocorreu mais especificamente no Norte do país, pois no Sul a topografia caracterizada por grandes planícies cortadas por volumosos rios favorecia o avanço exploratório das Bandeiras, seguidas de perto pelos padres catequistas – estes, interessados em docilizar os indígenas e conformá-los à religião e aos hábitos e europeus, enquanto aqueles perseguiam-nos para escravizá-los ou simplesmente para os aniquilar.

Só no sertão os indígenas se sentiam protegidos. Os poucos brancos que por lá se aventuravam “logo perdiam a sanha aventureira diante das dificuldades do terreno” e acabavam voltando para o litoral ou se instalando em grandes latifúndios, abrindo mão de novas conquistas. Isolados do restante do país, brancos e indígenas se miscigenaram dando origem ao curiboca, em contraponto à miscigenação litorânea que resultou no mulato, descendente de brancos e negros. Além de manter o curiboca a salvo das ameaças provenientes do litoral, a aridez do sertão isolou-o culturalmente do restante do país, fazendo com que a fé católica e hábitos antigos se amalgamassem numa cultura fundamentalista que considerava como manifestação demoníaca todas as “novidades” vindas do litoral, inclusive a derrubada da Monarquia e a proclamação da República.

Retratos do interior do Brasil: Euclides da Cunha

Inspirado nas ideias de determinismo genético prevalecentes na época, Euclides da Cunha demora-se na descrição dos elementos fundadores da sociedade brasileira tentando provar a existência de uma “raça” “desequilibrada” e “decadente”: “O mestiço – mulato, mamaluco ou cafuz – menos que um intermediário, é um decaído, sem a energia física dos ascendentes selvagens, sem a altitude intelectual dos ancestrais superiores. Contrastando com a fecundidade que acaso possua, ele revela casos de hidridez moral extraordinários: espíritos fulgurantes, às vezes, mas frágeis, irrequietos, inconstantes, deslumbrando um momento e extinguindo-se prestes, feridos pela fatalidade das leis biológicas”. (p. 87)

A descrição minuciosa a seguir revela um indivíduo indolente, de vontade escassa:

“Falta-lhe a plástica impecável, o desempeno, a estrutura corretíssima das organizações atléticas. É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo, reflete no aspecto a fealdade dos fracos. O andar sem firmeza, sem aprumo, quase gingante e sinuoso, aparenta a translação de membros desarticulados. Agrava-o a postura normalmente abatida, num manifestar de displicência que lhe dá um caráter de humildade deprimente. A pé, quando parado, recosta-se invariavelmente ao primeiro umbral ou parede que encontra; a cavalo, se sofreia o animal para trocar duas palavras com um conhecido, cai logo sobre um dos estribos, descansando sobre a espenda da sela. Caminhando, mesmo a passo rápido, não traça trajetória retilínea e firme. Avança celeremente, num bambolear característico, de que parecem ser o traço geométrico os meandros das trilhas sertanejas. E se na marcha estaca pelo motivo mais vulgar, para enrolar um cigarro, bater o isqueiro, ou travar ligeira conversa com um amigo, cai logo – cai é o termo – de cócoras, atravessando largo tempo numa posição de equilíbrio instável, em que todo o seu corpo fica suspenso pelos dedos grandes dos pés, sentado sobre os calcanhares, com uma simplicidade a um tempo ridícula e adorável. É o homem permanentemente fatigado”. (p. 91)

Entretanto, tudo muda no sertanejo quando algum incidente o põe em alerta.

A atonia muscular desaparece. Rijo, eleva o olhar e, em instantes, transforma-se em outro indivíduo: “Da figura vulgar do tabaréu canhestro, reponta, inesperadamente, o aspecto dominador de um titã acobreado e potente, num desdobramento surpreendente de força e agilidade extraordinárias”. (p. 92)

Resumidamente, Euclides da Cunha traça a figura do sertanejo como um indivíduo desgracioso, desengonçado e torto, que diante necessidade transforma-se instantaneamente num “titã acobreado e potente” revelando força surpreendente e agilidade extraordinária.

Retratos do interior do Brasil: Almeida Júnior

Como Almeida Júnior vê o homem do interior do Brasil? O artista efetivamente pintou sertanejos?

A tela “O derrubador brasileiro”, pintada em 1875, talvez seja a que mais se aproxima da imagem do sertanejo, pois mostra um homem jovem mestiço, de pele acobreada e feições caboclas, fumando durante uma pausa no trabalho. O homem descansa sentado numa pedra e recostado a outra maior atrás de si, apoiado ao cabo da ferramenta que utiliza para derrubar a mata. À sua esquerda, a existência de um pé de palma forrageira (Opuntia ficus-indica (L.) Miller), cactácea típica do semi-árido nordestino, sugere que a pintura retrata o sertão. Entretanto, o homem não se parece em nada com um “tabaréu” e tampouco a expressão do seu rosto mostra um “condenado à vida”, conforme Euclides da Cunha descreve o sertanejo. Ao contrário, o porte altivo do homem e sua ótima compleição física saltam à vista apesar da posição de descanso. Também falta ao homem a proteção de couro utilizada como roupa pelos sertanejos para se protegerem dos espinhos e das rochas pontiagudas constantes na caatinga.

Quem é o homem pintado por Almeida Júnior? A que grupo social pertence?

Outra obra, “Amolação interrompida”, de 1894, mostra outro homem amolando um machado. Mais uma vez, não parece o indivíduo permanentemente fatigada descrito por Euclides. As feições do rosto e a cor da pele lembram o “Derrubador brasileiro”, embora este pareça menos viril. A tela mostra pouco do entorno onde o homem se encontra, mas percebe-se que o verde é dominante na paisagem absolutamente distinta da caatinga descrita por Euclides da Cunha como uma vegetação “de poucos gêneros, quase reduzida a uma espécie invariável, divergindo apenas no tamanho, tendo todas a mesma conformação, a mesma aparência de vegetais morrendo, quase sem troncos, em esgalhos logo ao irromper do chão” (p 37) – o que afasta o personagem da tela para longe do sertão. Novamente a pergunta: a que grupo social pertence o amolador de machado?

Na tela “Caipira picando fumo”, de 1893, Almeida Júnior mostra um homem sentado nos troncos que servem de degrau de entrada de uma casa de taipa, cuja única preocupação é cortar o fumo no tamanho certo para preparar o cigarro a ser imediatamente fumado. A palha está devidamente cortada e reservada na orelha esquerda. O rosto não revela cansaço, mas desânimo. As roupas de algodão estão sujas, assim como os pés, como se o homem houvesse sido flagrado logo após chegar do trabalho diário. Entretanto, a sombra revela sol alto, distante ainda do horário em que se interrompe o trabalho. A cena não sugere uma pausa para repouso, pois o homem se deixa estar sob o sol forte, sem procurar sombra refrescante. Ao contrário, não há nada de fortuito em seus gestos e pose. Será este personagem um dos sertanejos condenados à vida descritos por Euclides? Talvez. Entretanto, Almeida Júnior identifica o quadro como “Caipira picando fumo”, fazendo referência explícita a um tipo social que habita regiões muito distantes do sertão. Trata-se, portanto, do mestiço habitante possivelmente do interior paulista ou do Centro-Oeste.

Pelo prestígio que Almeida Júnior adquiriu como importante pintor do interior do país na segunda metade do século XIX, muitas vezes sua obra é inadvertidamente associada ao sertão. Entretanto, esta associação me parece equivocada em face das frustradas tentativas acima de associação acima entre o relato euclidiano e as telas do artista.

Nascido em Itu, interior de São Paulo, em 1850, Almeida Júnior formou-se na Academia Imperial de Belas Artes do Rio de Janeiro e completou seus estudos na Escola Nacional de Belas-Artes de Paris, como bolsista do imperador D. Pedro II, que decidiu custear-lhe o estudo no exterior depois de se impressionar com algumas de suas obras. Suas principais obras retratam a vida calma do campo, no interior paulista.

A série de telas “Retirantes”, pintada na década de 40 do século XX por Cândido Portinari, artista também oriundo do interior paulista, é a que melhor retrata o sertanejo descrito por Euclides da Cunha.

* As indicações de páginas referem-se à edição da obra-prima de Euclides da Cunha publicada pela Editora Abril, em 1979.

CUNHA, Euclides da. Os sertões – campanha de canudos. São Paulo, Abril Cultural, 1979.