quarta-feira, 29 de outubro de 2008

A cerâmica pré-colombiana da Ilha de Marajó


Está escrito na Bíblia que o homem foi feito com o pó da terra e que o próprio Deus o modelou com as mãos antes de soprar-lhe o fôlego de vida nas narinas. Há muito relegada à condição de mito, a tese criacionista talvez sirva para explicar a relação do homem com a terra.
É do chão que brota o alimento humano e por isso a sua posse representa poder. É na terra que nos apoiamos para ficar eretos e caminhar, o que faz dela nosso principal referencial de solidez. Não é de admirar, portanto, que a arte produzida pelas civilizações mais primitivas, ou seja, de economia baseada principalmente na caça e na coleta, encontrem no barro a matéria ideal para construir objetos rudimentares cuja utilidade transcende o uso prático.
A manufatura ou industrialização de objetos a partir da argila (barro) recebe o nome de cerâmica. Adornados ou pintados de forma expressiva, esses objetos são classificados como arte ceramista ou arte cerâmica.
No Brasil, a manifestação mais antiga da arte ceramista foi encontrada na Ilha de Marajó, no Pará, entre os anos 40 e 60 do século XX. As pesquisas dos arqueólogos Betty Meggers e Clifford Evans permitiram a identificação de diversas tradições ceramistas, diferenciadas pelos tipos de decoração empregados. Os arqueólogos identificaram a cerâmica hachurada, típica dos ananatubas, primeiros ocupantes da região e que remontam ao primeiro milênio A.C. Identificaram, também, a borda-incisa da região do Solimões, a inciso-ponteada do baixo e médio Amazonas, a cerâmica de Santarém, atribuída aos tapajós, e a policrômica, ricamente decorada e colorida, com motivos complexos e técnicas variadas, típica da ilha e datada entre os anos 400 e 1350 da nossa era. Entre os objetos de uso, destacam-se vasilhas, potes, urnas funerárias, tangas (tapa-sexo), chocalhos, estatuetas, bancos etc., pintados com sumo de vegetais ou monocromáticos. Caracterizam-se por “padrões labirínticos e repetitivos e traços gráficos simétricos”.
Se faltam certezas quanto à origem da arte ceramista marajoara, sobra reconhecimento à sua qualidade. “Altamente decoradas, essas peças rituais retratam imagens estilizadas de humanos e animais – muitas vezes, corujas e aves noturnas – como expressão de mitos e crenças”. As urnas funerárias para homens se diferenciam das destinadas às mulheres por meio de representações gráficas dos órgãos sexuais.
Pietro Maria Bardi se refere à arte ceramista como uma atividade de execução tranqüila, que “demanda calma e circunspecção, escolha ponderada das argilas e dos elementos de liga, além de um paciente manejo”. De fato, o que se observa na cerâmica marajoara é um trabalho meticuloso, que valoriza a peça para muito além do seu uso prático. O esmero na representação de elementos que preenchiam o campo visual dos nativos, como aves, répteis e mamíferos, talvez tivesse finalidade maior que a simples ornamentação dos utensílios. Possivelmente estas representações tinham finalidade iconográfica, como descrição do ambiente no qual o habitante da ilha vivia e de suas relações com as mitologias vigentes. Certamente era uma forma de socializar e perpetuar conhecimentos, de estabelecer posições sociais, de comunicar emoções e reforçar tradições.

Referência bibliográfica
BARDI, P.M. Arte da cerâmica no Brasil. Banco Sudameris Brasil S.A., 1980

Internet
Enciclopédia Itaú Cultural de Artes Visuais: http://www.itaucultural.org.br/aplicExternas/enciclopedia_IC/index.cfm?fuseaction=termos_texto&cd_verbete=5353. Disponível em 28/10/2008 às 18h.
Marajoara.com: http://www.marajoara.com/iconografia.html. Disponível em 29/10/2008 às 11h50. Site da historiadora e arqueóloga Denise Schaan.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Possibilidades interpretativas da obra "A Festa de Batizado" (1664), de Jan Steen


Um indivíduo que faz parte da cena, sem, contudo, aparecer nela. Parece que ninguém percebe a sua presença. Será que ele é tão insignificante? Se pensam isso dele, estão equivocados. Na verdade, trata-se de um observador silencioso e perspicaz, capaz de congelar a cena no momento exato em que ela atinge o maior significado.
O narrador descreve uma cena repleta de pessoas em alvoroço. Houvesse áudio no quadro, ouviríamos uma profusão de vozes – umas mais altas, outras quase silenciosas, mas todas ao mesmo tempo em conversas paralelas e transversais. O entusiasmo pelo assunto central é tão grande que tudo o mais é tratado com displicência. Utensílios de cozinha, cascas de ovo e restos de comida se espalham pelo piso de pedra da casa confortável guarnecida com bons móveis. Mulheres mais idosas e uma grávida estão à esquerda e ao fundo da movimentação central, decididas a não atrapalhar as atividades, uma vez que não podem ajudar. Conversam entre si em tom de voz mais baixo, enquanto aguardam o desenrolar dos fatos. No lado oposto, à direita, em contraponto simétrico, três mulheres mais jovens estão em plena atividade. Uma delas conversa animadamente com a mulher de costas no centro da cena. As outras ouvem, enquanto uma delas verte água num utensílio que talvez seja uma tina, e a outra prepara o aposento para o ritual que ocorrerá.
Quem é a mulher de costas no primeiro plano e quase no centro da composição? A atitude de comando e a cabeça descoberta sugerem que seja a dona da casa e mãe do bebê. É uma mulher jovem, cuja elegância pode ser notada apesar das mangas dobradas e do avental.
A criança é sustentada por um homem bem vestido, que também enverga um avental. Será o pai da criança? O avô? Possivelmente seja o sacerdote responsável pelo rito batismal, pois segura o bebê com a indiferença de quem está habituado à tarefa. Talvez o pai seja o homem do fundo, saindo de esguelha e deixando tudo por conta da esposa. Por que está saindo? Será que tem compromissos importantes que o impedem de acompanhar o batizado? Será que não comunga da religião da esposa? Considerando que a cena ocorre no século XVII, sair de casa e deixar por conta da esposa um evento tão importante denota grande liberalidade. Possivelmente, então, trata-se de uma família burguesa. A tese é corroborada pelos móveis confortáveis da casa, pelo cômodo de dimensão reduzida, mas funcional e bem decorado, com piso de pedra nobre, prataria decorativa nas paredes e luminárias pendentes do teto. No século XVII a burguesia ainda era uma classe emergente que buscava o reconhecimento da nobreza e do clero e o respeito da plebe.
A excitação gerada pelo rito, que faz todos se esquecerem do seu motivo central, ou seja, o bebê, mostra uma burguesia preocupada em criar cerimoniais que a aproxime da rotina festiva da nobreza. O bebê é apenas um pretexto para o rito. Será que é disso que o pai foge, lançando um sorriso de desdém? Ele não é figura tão secundária quanto pode parecer à primeira vista, pois está posicionado precisamente no centro óptico da cena, pouco acima do centro geométrico e dividindo as mulheres passivas e quase alheias aos preparativos, das outras agitadas e visivelmente empenhadas. Como bom calvinista que certamente é, talvez ele prefira a casa limpa e organizada, desocupada de gente estranha e livre de cerimônias que para ele não fazem sentido.
Definitivamente, o narrador da cena não é insignificante. Ele não apenas vê, mas compreende o que vê e por isso consegue reproduzir a cena com tamanha riqueza de detalhes. Utiliza-se da mimese aristotélica, que lhe permite “criar o que já existe”, indo muito além da imitação da realidade visível e oferecendo possibilidades interpretativas para a mesma.

Referência bibliográfica
GOMBRICH, E.H. A história da arte. 16ª edição, Rio de Janeiro, LTC Editora, 1999