terça-feira, 4 de novembro de 2008

WebTV: desafios a serem vencidos em prol da pluralidade

As duas tecnologias de comunicação mais importantes da atualidade, a televisão e a Internet, estão passando por um irreversível processo de fusão, que resultará na propalada TV Digital Interativa, com potencial para proporcionar uma experiência de uso muito além do que cada uma oferece isoladamente. O aporte de conteúdo que a Internet traz para a TV e a contribuição desta em penetrabilidade têm potencial para revolucionar o conceito de cultura de massa como é conhecido atualmente.
A rigor, a nova tecnologia é capaz de pulverizar o modelo comunicacional de mão única predominante desde que a radiodifusão foi descoberta no começo do século. Em lugar do broadcasting, o que se espera da nova mídia é que permita que os usuários sejam, eles mesmos, receptores e emissores. Esta possibilidade descortinaria novos caminhos para a comunicação e a difusão da cultura, com conseqüências sociais e culturais ainda não mensuradas plenamente. Citando GOULD (apud CASTELLS 2003:67), para quem “a história da vida é uma série de situações estáveis, pontuadas em intervalos raros por eventos importantes que ocorrem com grande rapidez e ajudam a estabelecer a próxima era estável”, CASTELLS (2003:67) afirma:
Meu ponto de partida, e não estou sozinho nesta conjetura, é que no final do século XX vivemos um desses raros intervalos na história. Um intervalo cuja característica é a transformação de nossa “cultura material” pelos mecanismos de um novo paradigma tecnológico que se organiza em torno da tecnologia da informação.
As previsões relacionadas ao maravilhoso mundo da difusão independente, da pluralidade de idéias e da liberdade de expressão, se tornam especialmente atraentes quando confrontadas com a cultura de massa predominante em nossa era e tão criticada desde a primeira metade do século XX pelos representantes da Escola de Frankfurt. Em 1947 Adorno (apud LIMA 2005:171) descreveu o rádio como um meio “democrático, [que] torna todos os ouvintes iguais ao sujeitá-los, autoritariamente, aos idênticos programas das várias estações. Não se desenvolveu qualquer sistema de réplica e as transmissões privadas são mantidas na clandestinidade”. Na mesma época, previu (2005:173):
“A televisão tende a uma síntese do rádio e do cinema, retardada enquanto os interessados ainda não tenham conseguido um acordo satisfatório, mas cujas possibilidades ilimitadas prometem intensificar a tal ponto o empobrecimento dos materiais estéticos que a identidade apenas ligeiramente mascarada de todos os produtos da indústria cultural já amanhã poderá triunfar abertamente”.
Mais de meio século depois, CASTELL (2003:69) se entusiasma com o que seriam as novas formas de difusão da cultura, baseadas na tecnologia digital:
“As novas tecnologias da informação não são simplesmente ferramentas a serem aplicadas, mas processos a serem desenvolvidos. Usuários e criadores podem tornar-se a mesma coisa. Dessa forma, os usuários podem assumir o controle da tecnologia como no caso da Internet. Há, por conseguinte, uma relação muito próxima entre os processos sociais de criação e manipulação de símbolos (a cultura da sociedade) e a capacidade de produzir e distribuir bens e serviços (as forças produtivas). Pela primeira vez na história, a mente humana é uma força direta de produção, não apenas um elemento decisivo no sistema produtivo”.
Será que existe razão para tamanho entusiasmo? Pode-se seguir ao pé da letra o parecer de Negroponte, que defende que “vivemos num mundo que se tornou digital” (apud CASTELL 2003:68) e achar que as vias para a difusão das idéias estão de fato abertas e acessíveis a qualquer um?
Em tese, de fato estão acessíveis. Os investimentos para publicar conteúdo audiovisual pela Internet, sistema batizado de WebTV, são irrisórios se comparados com o necessário para as transmissões convencionais. Entretanto, na Internet, o conteúdo fica à deriva no meio de milhões de sites, à espera de ser encontrado pelo público, o que frustra os ideais de pluralidade cultural e de expressão livre. Embora tecnologicamente viável, a logística de distribuição inviabiliza a WebTV.
O que precisa mudar nos modelos atuais para que os grupos minoritários e até os indivíduos tenham voz no aparato midiático? Que contribuições a hibridização das tecnologias pode trazer para a democratização do acesso às mídias de alta penetração? Continuaremos à mercê dos grandes conglomerados de comunicação e encantados apenas com imagens e áudio com qualidade digital? Como massificar a distribuição, sem massificar o conteúdo? Acredito que o calcanhar-de-aquiles do modelo atual e das propostas de TVDigital apresentadas até o momento está na distribuição.

Referências bibliográficas
CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. 7ª edição, São Paulo, Ed. Paz e Terra, 2003
LIMA, Luiz Costa. Teoria da cultura de massa. 7ª edição, São Paulo, Ed. Paz e Terra, 2005

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