terça-feira, 28 de outubro de 2008

Possibilidades interpretativas da obra "A Festa de Batizado" (1664), de Jan Steen


Um indivíduo que faz parte da cena, sem, contudo, aparecer nela. Parece que ninguém percebe a sua presença. Será que ele é tão insignificante? Se pensam isso dele, estão equivocados. Na verdade, trata-se de um observador silencioso e perspicaz, capaz de congelar a cena no momento exato em que ela atinge o maior significado.
O narrador descreve uma cena repleta de pessoas em alvoroço. Houvesse áudio no quadro, ouviríamos uma profusão de vozes – umas mais altas, outras quase silenciosas, mas todas ao mesmo tempo em conversas paralelas e transversais. O entusiasmo pelo assunto central é tão grande que tudo o mais é tratado com displicência. Utensílios de cozinha, cascas de ovo e restos de comida se espalham pelo piso de pedra da casa confortável guarnecida com bons móveis. Mulheres mais idosas e uma grávida estão à esquerda e ao fundo da movimentação central, decididas a não atrapalhar as atividades, uma vez que não podem ajudar. Conversam entre si em tom de voz mais baixo, enquanto aguardam o desenrolar dos fatos. No lado oposto, à direita, em contraponto simétrico, três mulheres mais jovens estão em plena atividade. Uma delas conversa animadamente com a mulher de costas no centro da cena. As outras ouvem, enquanto uma delas verte água num utensílio que talvez seja uma tina, e a outra prepara o aposento para o ritual que ocorrerá.
Quem é a mulher de costas no primeiro plano e quase no centro da composição? A atitude de comando e a cabeça descoberta sugerem que seja a dona da casa e mãe do bebê. É uma mulher jovem, cuja elegância pode ser notada apesar das mangas dobradas e do avental.
A criança é sustentada por um homem bem vestido, que também enverga um avental. Será o pai da criança? O avô? Possivelmente seja o sacerdote responsável pelo rito batismal, pois segura o bebê com a indiferença de quem está habituado à tarefa. Talvez o pai seja o homem do fundo, saindo de esguelha e deixando tudo por conta da esposa. Por que está saindo? Será que tem compromissos importantes que o impedem de acompanhar o batizado? Será que não comunga da religião da esposa? Considerando que a cena ocorre no século XVII, sair de casa e deixar por conta da esposa um evento tão importante denota grande liberalidade. Possivelmente, então, trata-se de uma família burguesa. A tese é corroborada pelos móveis confortáveis da casa, pelo cômodo de dimensão reduzida, mas funcional e bem decorado, com piso de pedra nobre, prataria decorativa nas paredes e luminárias pendentes do teto. No século XVII a burguesia ainda era uma classe emergente que buscava o reconhecimento da nobreza e do clero e o respeito da plebe.
A excitação gerada pelo rito, que faz todos se esquecerem do seu motivo central, ou seja, o bebê, mostra uma burguesia preocupada em criar cerimoniais que a aproxime da rotina festiva da nobreza. O bebê é apenas um pretexto para o rito. Será que é disso que o pai foge, lançando um sorriso de desdém? Ele não é figura tão secundária quanto pode parecer à primeira vista, pois está posicionado precisamente no centro óptico da cena, pouco acima do centro geométrico e dividindo as mulheres passivas e quase alheias aos preparativos, das outras agitadas e visivelmente empenhadas. Como bom calvinista que certamente é, talvez ele prefira a casa limpa e organizada, desocupada de gente estranha e livre de cerimônias que para ele não fazem sentido.
Definitivamente, o narrador da cena não é insignificante. Ele não apenas vê, mas compreende o que vê e por isso consegue reproduzir a cena com tamanha riqueza de detalhes. Utiliza-se da mimese aristotélica, que lhe permite “criar o que já existe”, indo muito além da imitação da realidade visível e oferecendo possibilidades interpretativas para a mesma.

Referência bibliográfica
GOMBRICH, E.H. A história da arte. 16ª edição, Rio de Janeiro, LTC Editora, 1999

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