quarta-feira, 20 de agosto de 2008

O maestro da ralé


O que leva um sujeito a tomar para si a missão de acordar uma sociedade letárgica que, iludida com falsos prenúncios de prosperidade, recusa-se a perceber o charco social no qual se apóia? Quem é suficientemente louco para se insurgir contra o meio onde foi criado, esbofeteando a cara de seus pares e gritando que estes vivem na podridão, justamente quando sonham habitar um paraíso tropical destinado a se tornar a próxima potência mundial?

José Celso Martinez Correa, estudante da tradicionalíssima Faculdade de Direito São Francisco, foi o sujeito que decidiu estragar a festa da burguesia paulista “burra e provinciana”
[1], na definição do próprio, alertando-a para o fato de que o seu pragmatismo monetário a tornara mesquinha e insensível. Com o Teatro Oficina, organizado em 1958 em companhia de Renato Borghi, José Celso assumiu o papel do sujeito inconveniente que não se acanha de constranger a todos defecando publicamente e mandando tomar no cu – literalmente – quem, superando o horror, ousa protestar. José Celso Martinez Correa pôs para correr da platéia do seu teatro um público que, na visão dele, não merecia lugar lá[2].

A São Paulo dos anos 60 precisava mesmo que José Celso lhe dissesse que teatro não é lugar para aplacar a consciência. Antes, “a missão principal do teatro ... [é] colocar esse público cara a cara com a miséria do seu privilégio feito às custas de tantas concessões”
[3]. Nas palavras do próprio diretor, “o teatro não pode ser um instrumento de educação popular, de transformação de mentalidades na base do bom-meninismo. A única possibilidade é exatamente pela deseducação, provocar o espectador, provocar a sua inteligência recalcada, seu sentido de beleza atrofiado, seu sentido de ação protegido por mil e um esquemas teóricos abstratos e que somente levam à ineficácia. (...) Cada vez mais essa classe média que devora sabonetes e novelas estará mais petrificada e, no teatro, ela tem que delegar na base da porrada”.[4]

Foi com essa inspiração que, em 1968, o Teatro Oficina montou a peça Roda Viva, a partir do texto original de Chico Buarque, cuja vitalidade, na opinião de Fernando Peixoto, vinha de “um ímpeto tribal”.[5] A censura levou o tal “ímpeto tribal” tão a sério que proibiu o espetáculo, sob a alegação de que atentava contra a segurança nacional, por suscitar distúrbios. De fato, Nossa Senhora desfilando de biquíni entre pessoas simulando atos sexuais, masturbação, lesbianismo e homossexualismo eram razão suficiente para a “burguesia Macunaíma” deixar a preguiça de lado, nem que fosse por um tantinho de tempo, o suficiente para desviar os olhos do espetáculo incômodo. A coisa era tão da ralé que alguns críticos nem queriam comentar. Outros, com grande esforço, superando pruridos moralistas, disseram: “Em Roda Viva... o teatro parece agonizar sob as machadadas de um bando de selvagens”.[6]

Selvagens, sim, mas comandados com maestria por José Celso. Uma parte do elenco de Roda Viva, constituída por atores com técnica de representação abaixo da média, era liberada para atuar conforme suas pulsões, interpretando a si mesmos, sem representação[7]. Eram os geniais “porras-loucas” do Zé Celso, os ralés, que acabavam por estabelecer enorme contraste com a platéia, esta sim, representando ciosamente o seu papel de elite cultural e monetária do país.
Só mesmo machadadas selvagens para acordar o Brasil que prefere a atitude atávica do bom-mocismo, ao enfrentamento sistemático de suas mazelas. A esperança está nas ralés.

[1]SILVA, Armando Sérgio da. Oficina: do teatro ao te-ato. São Paulo, Ed. Perspectiva, 1981. p. 158.
[2] SILVA, Armando Sérgio da. Oficina: do teatro ao te-ato. São Paulo, Ed. Perspectiva, 1981. p. 166. O autor afirma textualmente que, com a montagem de Roda Viva, “muitas pessoas iriam pela última vez ao teatro; o público que, de certa forma, o Oficina queria afastar do teatro”.
[3] Idem, p. 159.
[4] “A guinada de José Celso” (entrevista concedida a Tite Lemos), Teatro e Realidade Brasileira, Revista da Civilização Brasileira, junho de 1968, IN: SILVA, Armando Sérgio da. Oficina: do teatro ao te-ato. São Paulo, Ed. Perspectiva, 1981. p. 159-160.
[5] PEIXOTO, Fernando. Teatro Oficina (1958-1982): trajetória de uma rebeldia cultural. São Paulo, ed. Brasiliense, 1982. p. 67.
[6] LEMOS, Tite. O que é o novo teatro?, Jornal do Brasil, 10/09/79, IN: SILVA, Armando Sérgio da. Oficina: do teatro ao te-ato. SP, Ed. Perspectiva, 1981. p. 165.
[7] SILVA, Armando Sérgio da. Oficina: do teatro ao te-ato. SP, Ed. Perspectiva, 1981. p. 233.

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