quarta-feira, 20 de agosto de 2008

A gramática torta de Adoniran Barbosa


Adoniran Barbosa, importante sambista que viveu entre os anos 30 e 80 na capital paulista, é lembrado e admirado até os dias atuais por canções que abordam o cotidiano popular com grande sensibilidade e, quase sempre, de forma bem-humorada. Mais que isso, Adoniran também é lembrado pelos erros gramaticais que caracterizam a sua vasta galeria de sucessos. A pergunta motivadora deste texto é: Qual o sentido de criar canções cheias de erros, como o samba-de-breque Casamento do Moacir (no qual o ouvinte é informado que o noivo era casado cinco veiz lá no estado do Rio)? Embora o sambista procurasse simplificar a questão com o chavão “Falar errado é uma arte, senão vira deboche”[1], procurarei discutir a motivação do artista para tal peculiaridade e demonstrar que suas letras devem ser lidas para além do léxico oficial.


A arte de Adoniran Barbosa

Sempre fiel à própria tese de que “falar errado é uma arte”, Adoniran Barbosa deixou para a posteridade uma obra vultosa em sambas que retratam o dia-a-dia do paulistano pobre, aturdido com os efeitos do crescimento acelerado da cidade em meados do século XX. É o que se verifica em Saudosa Maloca, gravada em 1951 pela Continental Discos, cuja melodia expressa o drama dos despejados com notas medianas e graves e de longa duração, o que confere um ritmo cadenciado à música, como o lamento de pessoas conformadas com a má sorte:


Saudosa maloca
(Adoniran Barbosa)

Se o senhor não está lembrado
Dá licença de contá
Que aqui onde agora está
Este adifício alto
Era uma casa velha
Um palacete abandonado
Foi aqui, seu moço, que eu, Mato Grosso e o Joca
Construímos nossa maloca
Mas, um dia, nem quero me lembrar
Veio os homes co'as ferramentas
O dono mandou derrubá
Peguemo tuda nossas coisas
E fumos pro meio da rua
Apreciá a demolição
Que tristeza que eu sentia
Cada tauba que caía
Doía no coração
Mato Grosso quis gritá
Mas em cima eu falei
Os homes tá co'a razão
Nóis arranja outro lugar
Só se conformemos
Quando o Joca falou
Deus dá o frio conforme o cobertor
E hoje nóis pega paia
Nas grama do jardim
E pra isquecê nóis cantemos assim:
Saudosa maloca, maloca querida
Dim, dim, donde nóis passemo os'dias feliz de nossa vida
Saudosa maloca, maloca querida
Dim, dim, donde nóis passemo os'dias feliz de nossa vida

Para compreender a gramática de Adoniran é necessário atentar, não apenas para as rimas da música, mas também para o ambiente em que esta surgiu e a quem se destinava. Afinal, ao compositor não faltavam habilidades musical e lingüística. A falta do bacharelado – tão ambicionado naqueles tempos – era compensada pela sensibilidade desenvolvida pela convivência com os tipos que compunham a base da pirâmide social paulistana, segmento em franca expansão na primeira metade do século XX. Era sobre eles e para eles que Adoniran Barbosa compunha sambas.

No livro Sonoridades paulistanas, que relata a formação das expressões musicais da capital paulista do fim do século XIX ao início do XX, MORAES (1995:53) descreve a São Paulo das primeiras décadas do século passado como uma cidade em ebulição, onde uma nova ordem social se impunha sobre o modelo anterior baseado na aristocracia cafeeira. O período coincide com a substituição da mão-de-obra escrava, proibida definitivamente em 1888 pela Lei Áurea, pelos imigrantes europeus que chegavam aos milhares para trabalhar principalmente nas fazendas de café. Dispensados das lavouras, os negros dirigiram-se para a Capital em busca de condições mínimas de sobrevivência, seguidos posteriormente pelos imigrantes que não se adaptavam à lida no campo ou quando seus contratos de trabalho expiravam. O processo de industrialização do país, capitaneado por São Paulo, acelerou ainda mais a urbanização da cidade sem, contudo, garantir colocação profissional a todos que nela se instalavam. Do descompasso entre o fluxo de mão-de-obra desqualificada para as ocupações industriais e as vagas disponíveis, resultou uma multidão obrigada a garantir o sustento diário por meio do pequeno comércio e das ocupações informais. Segundo MORAES (op cit)

... na passagem do século, apenas cinco mil operários estavam vinculados diretamente ao trabalho nas indústrias de grande porte, de um total de quase 300 mil habitantes (apud PINTO, Maria Inês B. Cotidianos e sobrevivência – a vida dos trabalhadores pobres na cidade de São Paulo (1890–1914), tese de doutoramento, FFCHL, USP, 1984).

MORAES (1995:56) destaca que a população imigrante pobre acabaria se fixando em lugares afastados do centro, junto das estradas de ferro e perto das indústrias, onde a moradia era mais barata, formando bairros como Barra Funda, Bexiga e Liberdade. Excluídos do centro, os imigrantes desenvolveram forte vínculo afetivo com o lugar onde foram acolhidos.

Foi neste ambiente que João Rubinato, nascido em 6 de agosto de 1910 em Valinhos, interior de São Paulo, filho de imigrantes italianos, cresceu e, adulto, assumiu o papel de cronista da população paulistana pobre da primeira metade do século XX – realidade que ele conhecia muito bem. Com passagens por Jundiaí e Santo André antes de se instalar definitivamente na Capital no começo dos anos 30, João Rubinato chegou à idade adulta vivendo de “viração”: foi pintor de paredes, mecânico, encanador, tecelão, conferente de transportadora, mascate, garçom e vendedor de tecidos, entre outras atividades (MOURA e NIGRI, 2002:36 e 44). Entretanto, o grande objetivo do rapaz sempre foi atuar no rádio e conquistar um lugar entre estrelas como Mário Reis, Noel Rosa, Francisco Alves, Sílvio Caldas e Ari Barroso.


O artista Adoniran Barbosa

O sonho começou a se realizar em 1933, com o convite para participar do Programa de Calouros comandado por Roque Ricciardi, o Paraguaçu. Cioso do momento, João Rubinato cuidou de inventar um pseudônimo, como era comum entre as estrelas radiofônicas da época. Foi então que surgiu Adoniran Barbosa, inspirado no nome de um amigo de boemia funcionário dos Correios (Adoniran Alves) e no sobrenome do cantor carioca Luís Barbosa. João Rubinato daria corpo e voz a muitos outros personagens, entre os quais Charutinho, Chico Belo, Zé Conversa, bandido Mané Mole, taxista Giuseppe Pernafina e Dr. Sinésio Trombone. Destes, apenas o sambista Adoniran Barbosa sobreviveu ao seu criador, falecido em 23 de novembro de 1982.
Se a definição de NAVES (1998:82) for tomada como referencial para a análise dos versos de Adoniran Barbosa, inspirados no cotidiano da patuléia paulistana das primeiras décadas do século XX, pode-se afirmar que ele era um modernista:

O que corresponde, na tradição modernista, ao ideal de despojamento? Justamente aqueles elementos prosaicos da linguagem cotidiana, incompatíveis, em momentos anteriores, com as formas elevadas que se exigiam no trabalho artístico.

Quem ousava questionar seu “despojamento” ouvia: “Falo errado por que quero e gosto. Todo mundo fala assim e eu uso no samba sem forçar. Quando eu faço a letra, olho bem e me pergunto: dá pra entender? Dá. Então vai”. (MOURA e NIGRI, 2002:25) (Grifo acrescentado.) O poeta demonstra consciência de que seus versos se legitimariam como crônica paulistana na medida em que reproduzissem a linguagem das ruas, confirmando o ponto de vista de Luiz Tatit, citado por NAVES (1998:136), segundo o qual

... a canção popular, pelo menos a brasileira, não se descuida da inteligibilidade. (...) Refiro-me aqui ao significado não-musical de prosódia, que indica, segundo o Aurélio, “pronúncia regular das palavras, com a devida acentuação”. Isso decorre do compromisso do compositor popular com os temas em voga no momento, as personalidades em destaque, e com a própria forma concreta da língua falada de seu tempo; pois é justamente na medida em que capta essas realidades e as expressa na forma da canção que ele se valida enquanto cancionista.

Eis o ponto forte e a genialidade, no meu entender, dos sambas de Adoniran Barbosa: seus versos devem ser esquadrinhados, não pela gramática oficial, mas por aquela vigente entre os carregadores do Mercado Municipal e os engraxates da Praça da Sé, entre os boêmios e as prostitutas, entre os imigrantes pobres e os caboclos chegados do interior. Sim, na gramática peculiar da patuléia, as letras de Adoniran Barbosa são um primor de prosódia. Que palavras poderiam exprimir apropriadamente a desolação de Mato Grosso, de Joca e do próprio narrador de Saudosa Maloca, três maloqueiros no sentido estrito da expressão, ante a demolição do lugar onde viviam? Certamente nenhuma é tão eficaz quanto os tempos verbais contá, peguemo, alembrá, derrubá, conformemo e isquecê e substantivos como adifício e tauba. “Dá pra entender? Dá. Então vai”. (MOURA e NIGRI, 2002:25).



Referências bibliográficas
FENERICK, José Adriano. Nem do morro, nem da cidade – as transformações do samba e a indústria cultural (1920–1945). Annablume Editora/Fapesp, São Paulo, 2005
MORAES, José Geraldo Vinci. Sonoridades paulistanas – final do século XIX ao início do século XX. Funarte e Editora Bienal, Rio de Janeiro e São Paulo, 1997
MOURA, Flávio; NIGRI, André. Adoniran – se o senhor não ta lembrado. Boitempo editorial, São Paulo, 2002
NAVES, Santuza Cambraia. O violão azul – modernismo e música popular. Editora FGV, Rio de Janeiro, 1998
SODRÉ, Muniz. Samba, o dono do corpo. 2ª edição, Mauad, Rio de Janeiro, 1998

Internet
MARTINS, Oswaldo. Adoniran Barbosa. Disponível em
http://www.vidaslusofonas.pt/adoniran_barbosa.htm, acessado às 10h55 de 17/07/2008

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